Location & Language Selector
Please select location or visit OUR GLOBAL MERIDA WEBSITE
1.600 QUILÓMETROS DE LIBERDADE
BTT DO UTAH AO COLORADO
THE TRANS ROCKIES CONNECTOR TRAIL
UMA AVENTURA DE BIKEPACKING CHEIA DE SURPRESAS, HUMANIDADE E O MELHOR DA NATUREZA
Toda a gente gosta de ir de férias: a emoção de conhecer novos lugares, provar comidas diferentes e conhecer pessoas novas. No entanto, nem todos escolhem passar as férias em bikepacking, atravessando paisagens remotas e exigentes, onde é preciso ir além dos próprios limites para enfrentar os desafios impostos pelo clima, pelo terreno e, por vezes, pela própria natureza. A Annika e o Till fizeram exatamente isso ao seguir o Trans Rockies Connector Trail, uma rota off-road com quase 1.600 quilómetros através das Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos. A paixão pelo ar livre, o desejo de se superarem física e mentalmente e a atração pelo desconhecido levaram-nos a embarcar nesta viagem. Em muitos momentos, a experiência exigiu mais do que tinham imaginado, mas as ligações humanas criadas ao longo do caminho tornaram estas “férias” verdadeiramente especiais — algo que nunca irão esquecer.
Estamos com temperaturas acima dos 40 °C, não vimos uma única pessoa nos últimos 100 km e a água — 18 litros transportados nas bicicletas — começa a escassear. Parados à beira de um trilho de gravilha completamente vazio, absorvemos a beleza pura da paisagem à nossa volta. Este é, sem dúvida, o melhor dia da viagem até agora. Uma viagem que nos levou por 1.600 km desde Salt Lake City, no Utah, até Boulder, no Colorado, em bicicletas de montanha. Apenas nós, as bicicletas, uma tenda e 30 dias de férias. Mal sabíamos que os desafios, a beleza e as inesperadas ligações humanas que iríamos encontrar redefiniriam completamente o significado de aventura. Acompanha-nos enquanto pedalamos pelo deserto de rocha vermelha do Utah, superamos subidas insanas nas Montanhas Rochosas, enfrentamos a imprevisibilidade selvagem do bikepacking e vivemos um nível de hospitalidade e generosidade por parte das comunidades locais que ainda hoje nos parece irreal.
Isto é mais do que uma história de bikepacking: é um testemunho da alegria inesperada e das descobertas que surgem quando simplesmente ousamos partir à aventura. Bem-vindos ao Trans Rockies Connector Trail — uma viagem que vai muito além do ciclismo.
O NASCER DE UMA AVENTURA
Sempre sonhámos pedalar pelas Montanhas Rochosas, mas também queríamos explorar a beleza crua dos desertos vermelhos do Utah — uma região que nos tinha roubado o coração no ano anterior, durante a nossa lua-de-mel. O Trans Rockies Connector Trail foi a espinha dorsal da rota, mas decidimos torná-la nossa, acrescentando alguns desvios por lugares menos conhecidos e absolutamente deslumbrantes. Na altura, não tínhamos bicicletas de montanha, por isso passámos várias noites a traçar o percurso e a tentar decidir qual seria a bicicleta ideal para esta aventura. Precisávamos de algo capaz de enfrentar subidas íngremes em terreno rochoso, transportar todo o equipamento com segurança enquanto evitávamos pedras e buracos em descidas intermináveis, oferecer conforto e suspensão suficientes nos trilhos mais duros, mas também ser rápida e divertida nos longos troços de deserto. Ficou claro desde cedo que uma hardtail leve, mas verdadeiramente capaz em trilho, seria a escolha perfeita — e a MERIDA BIG.NINE era a bicicleta certa para a missão. Depois de apresentarmos a nossa ideia de história fotográfica e de viagem à equipa da MERIDA, eles aceitaram apoiar-nos com as bicicletas. Como tantas vezes acontece, com a data de partida a aproximar-se rapidamente, não tivemos oportunidade de fazer vários treinos de afinação antes de seguir viagem. Felizmente, a posição, o setup e o equipamento acabaram por ser exatamente o que precisávamos.
Com o apoio da MERIDA, as nossas BIG.NINE 10K chegaram a tempo para um único teste antes de as colocarmos numa caixa, fazermos as malas e apanharmos o avião para os EUA — ainda com muitas dúvidas no ar. Será que nos iríamos sentir confortáveis nas bicicletas de montanha? A nossa condição física iria aguentar depois de lesões e doenças antes da viagem? Como iríamos gerir comida e água num ambiente tão isolado? Mas estávamos entusiasmados e prontos para o desconhecido. O resto, como se costuma dizer, iríamos resolver pelo caminho.
UM INÍCIO ESCALDANTE
Começámos em Salt Lake City, Utah, com uma paragem rápida numa loja REI para comprar spray anti-ursos, um tacho de cozinha, gás e refeições liofilizadas. E depois… partimos! Com jet lag, calor intenso e ainda um pouco desorientados pela diferença horária de oito horas, optámos por um primeiro dia curto. Acampámos junto a um riacho no Affleck Park, onde um ranger local nos avisou que o verdadeiro perigo nestas montanhas mais baixas não eram os ursos, mas sim os alces — aparentemente, podem ser surpreendentemente agressivos. Bem-vindos ao Utah.
O PRIMEIRO ENCONTRO COM A BONDADE HUMANA
À medida que entrávamos nas montanhas em direção a Park City, tivemos a nossa primeira experiência verdadeiramente de cortar a respiração: um completo desconhecido a oferecer-nos um lugar gratuito para passar a noite. Enquanto almoçávamos à porta de um supermercado, um homem chamado Seth convidou-nos a ficar na casa da sua família. Ele nem sequer estava lá — a família tinha ido acampar — mas disse-nos para nos sentirmos em casa, mexermos no frigorífico e descansarmos. Mal conseguíamos acreditar. Este nível de confiança contrastava fortemente com as nossas experiências na Europa e definiu o tom da hospitalidade e da bondade que iríamos encontrar repetidamente ao longo da viagem. Depois desta estadia improvisada numa casa alheia, seguimos a conduzir em direção ao Mill Hollow Reservoir. A natureza tornava-se cada vez mais dramática, as subidas mais íngremes e as moscas-dos-veados absolutamente implacáveis. Sempre que parávamos, 20 a 30 destes pequenos invasores rodeavam-nos em segundos. Ainda assim, a vista do nosso acampamento, com o lago à frente, valeu cada batalha contra os insetos. Depois de filtrarmos água do lago durante o que pareceu uma eternidade, desfrutámos de mais um pôr do sol incrível e começámos a entrar no nosso ritmo de montanha.
SKYLINE DRIVE
3.000 METROS DE PURA BELEZA E NATUREZA SELVAGEM
Se queres perceber o que tornou esta viagem verdadeiramente inesquecível, tens de conhecer a Skyline Drive. Depois de uma subida de 20 km, encontrámo-nos a conduzir a mais de 3.000 metros de altitude, numa crista tão bela que parecia saída de um sonho. Nos dias seguintes, nadámos em lagos cristalinos, jantámos com desconhecidos simpáticos que insistiam em cozinhar para nós e ficámos maravilhados ao avistar, pela primeira vez, um verdadeiro cowboy. O terreno, com um ambiente quase alpino, era deslumbrante, mas as noites eram geladas. Rapidamente percebemos que cada peça de roupa que levávamos era essencial para nos mantermos quentes. A paisagem era de cair o queixo, mas nem tudo foi perfeito. Houve a vez em que tentámos pescar nos lagos (sem qualquer sucesso) e o episódio em que a Annika quase teve um encontro indesejado com sanguessugas depois de um mergulho muito rápido. Mas, afinal, a vida no trilho é mesmo sobre aceitar o estranho e o inesperado, certo?
SAN RAFAEL SWELL
100 KM DE CALOR, ROCHAS VERMELHAS E MAGIA EM FORMA DE ARCO-ÍRIS
Quando chegámos à secção desértica, já tínhamos aprendido o suficiente para saber que precisávamos de uma reserva de água séria. Carregámos 18 litros de água e partimos através do San Rafael Swell, uma região tão deserta que parecia o cenário de um filme de faroeste. Encontrávamo-nos rodeados por uma mistura impressionante de terra vermelha, arbustos secos, formações rochosas gigantes e vastas planícies abertas. O calor era implacável, mas a paisagem era simplesmente surreal. Depois de algumas horas a conduzir por estradas de gravilha, aconteceu algo mágico: enquanto o sol se punha sobre as rochas vermelhas, um arco-íris perfeito desenhou-se nas nuvens de chuva ao longe, banhando tudo numa luz dourada. Parámos para absorver o momento, sentindo-nos como se estivéssemos dentro de uma cena de cinema. Seguimos mais um pouco já no escuro e acampámos num parque completamente vazio, com um telhado que nos protegeu da tempestade que se aproximava. Adormecemos ao som relaxante das gotas de chuva a bater na chapa ondulada do abrigo.
MOAB E O PODER DOS DIAS DE DESCANSO
Chegámos depois a Moab, um conhecido paraíso outdoor. Como já o tínhamos explorado bastante na nossa lua-de-mel no ano anterior, optámos por visitar uma cervejaria local e aceitámos com prazer mais um convite para ficar na casa de um desconhecido. Tivemos o nosso primeiro verdadeiro dia de descanso — muito bem-vindo — dedicado a cozinhar, lavar roupa e reorganizar todo o equipamento antes de seguir caminho em direção às La Sal Mountains. A subida à saída de Moab foi tão bonita quanto brutal. Felizmente, a excelente posição de condução e a ampla relação de mudanças das nossas BIG.NINE tornaram o esforço muito mais fácil. Esperávamos reabastecer as garrafas de água, mas não encontrámos qualquer fonte. Felizmente, um simpático casal canadiano ajudou-nos pelo caminho. Decidimos fazer um esforço noturno até ao cume, já no escuro, depois de ouvirmos falar de um pequeno lago com um parque de campismo rudimentar. Estávamos no meio da floresta e ainda mais profundamente em território de ursos quando caiu a noite, com vários quilómetros pela frente. Devia ser uma imagem curiosa: nós nas bicicletas, com luzes frontais, a cantar músicas desafinadas o mais alto possível para afastar qualquer urso. (Mal sabíamos quão rara é, afinal, uma aparição de urso naquela zona.) Chegámos ao lago, acendemos uma pequena fogueira para nos aquecermos, montámos a tenda e fomos dormir depois do jantar — apenas para sermos surpreendidos na manhã seguinte por… “Kevin Costner zangado”.
O KEVIN COSTNER ZANGADO
Nem tudo nesta viagem foi feito de borboletas e unicórnios. Ao acordarmos, demos de caras com um homem que parecia exatamente o Kevin Costner da série Yellowstone. Só que não estava nada contente. Parecia decidido a expulsar-nos da sua propriedade (apesar de não fazermos ideia de que estávamos a invadir terreno privado). Este episódio com o “Kevin Costner zangado” incluiu uma volta ao lago, uma lição sobre propriedade privada e aquele medo desconfortável que nós, europeus, parecemos ter sempre ao lidar com alguém armado. No entanto, assim que ele regressou a casa e falou com a esposa do proprietário, tudo mudou. Ela mandou-o voltar… e, de repente, o “Kevin zangado” transformou-se em “Kevin encantador”, trazendo-nos água e pedindo desculpa. Que reviravolta! Dica importante: encanta sempre a dona da casa.
AS MONTANHAS ROCHOSAS DO COLORADO E BÊNÇÃOS INESPERADAS
A nossa rota levou-nos em direção ao Colorado, passando por um lago belíssimo chamado Buckeye Reservoir. Na última descida antes de entrarmos no novo estado, o Till rasgou o pneu de tal forma que, mesmo com vários plugs e remendos, já não havia salvação possível. Descemos a montanha lentamente, num ciclo de 5 km entre conduzir e voltar a encher o pneu. Quando finalmente escureceu, encontrámos um local para dormir mesmo por baixo de uma crista que acabou por ser casa de inúmeros coiotes, que nos ofereceram um verdadeiro concerto durante toda a noite. Na manhã seguinte, não houve alternativa: tivemos de pedir boleia até Naturita. A Annika seguiu a pedalar e eu, depois de caminhar ao longo da estrada durante quase uma hora, acabei por ser apanhado pelo Louis, um antigo praticante de BMX. Tivemos sorte em Naturita — uma pequena localidade com pouco mais do que um supermercado e uma bomba de gasolina, mas que, felizmente, também tinha um dono de loja de bicicletas extremamente apaixonado, que tinha um pneu de substituição disponível e ainda verificou as bicicletas enquanto nós desfrutávamos de um Frappuccino bem gelado… com 43 °C à sombra.
Saímos da vila perto do meio-dia, sob um calor abrasador, com uma longa subida pela frente até ao próximo pico e ao local de acampamento da noite. Foi aí que encontrámos as irmãs mais adoráveis do planeta: Diana e Kathy, duas irmãs de 80 e 72 anos que ainda transportavam lenha montanha acima no seu velho camião oito vezes por ano para aguentar o inverno. Como se estivesse combinado — embora não estivesse —, na manhã seguinte, a Kathy, de 80 anos, apareceu junto à nossa tenda para nos avisar de que “o pequeno-almoço estava pronto” e que podíamos ir quando quiséssemos. Receberam-nos com café acabado de fazer e hashbrowns caseiros, e passámos duas horas incríveis a ouvir histórias de vida, resiliência e aventura.
UMA NOVA FAMÍLIA
À medida que descíamos em direção a Delta, a Annika lutava há dias com uma erupção cutânea grave e dolorosa provocada pelo calor, por isso planeámos ficar numa das cabanas com ar condicionado do parque de campismo local. A alergia tinha drenado quase toda a sua energia — e, claro, calções justos, suor e mais de 40 °C não ajudavam em nada. A desilusão por descobrirmos que as cabanas estavam encerradas transformou-se rapidamente numa bênção quando Don, um antigo cowboy, nos convidou a ficar com ele e com a sua esposa Beth, antiga campeã de barrel racing, no seu pequeno rancho de cavalos nos arredores de Delta.
Era tempo de deixar o corpo descansar. Passámos duas noites com eles e com os seus cães adoráveis, a falar de desporto, política, sonhos e, claro, de barrel racing. O Don chegou mesmo a levar-nos à cidade para comprarmos “as verdadeiras” botas e chapéus de cowboy — uma experiência memorável! Em apenas dois dias, criámos uma ligação tão próxima que, quando partimos, eles pediram a um amigo, Cory, para ficar disponível 24 horas por dia em caso de emergência, independentemente da distância a que estivéssemos de Delta. A boa notícia extra foi que esse descanso acabou por ser suficiente para a recuperação da Annika, e estávamos prontos para voltar aos trilhos — embora não sem uma despedida com algumas lágrimas. Tínhamos criado um carinho enorme pelos nossos anfitriões… e eles por nós.
A REDNECK RIVIERA
Seguimos de Delta em direção a Paonia, uma pequena vila hippie no meio do Colorado, com bandeiras arco-íris em praticamente todas as varandas. Depois de uma longa subida à saída da vila e já dentro da floresta, aguardava-nos mais uma surpresa. Quando pensávamos ter encontrado um local para acampar, um enorme 4x4 com dois rednecks de postal desceu pelo trilho. Afinal, estavam a caçar alces com arco e iam acampar ali durante algumas semanas. Foi então que nos revelaram um pequeno segredo que mudou tudo: o que chamavam de “Redneck Riviera”. Num pequeno canal de um rio de montanha, tinham preparado uma tábua para represar ligeiramente a água, criando uma espécie de banheira natural de água doce no meio da natureza. Sentarmo-nos ali, na água fria da montanha, com uma lata de refrigerante bem fresca oferecida pelos caçadores, foi como um tratamento de spa improvisado. No dia seguinte, só no topo do passo é que a Annika se apercebeu de que tinha deixado o relógio lá em baixo, na Riviera. Pelo menos isso permitiu-me testar verdadeiramente as capacidades de corrida da BIG.NINE! Tirei as malas, desci a montanha a fundo, encontrei o relógio e fiz a subida de volta em esforço máximo. A bicicleta é divertida carregada… mas ainda mais sem todo o equipamento pendurado nela!
TEXANOS E AS SUAS MARGARITAS
O nosso próximo objetivo era Marble. Ao atravessarmos o McClure Pass, fomos apanhados não por uma, mas por duas tempestades, uma de cada lado. Não tivemos alternativa senão largar as bicicletas e abrigarmo-nos debaixo da lona, à espera que o pior passasse. Duas horas depois, chegámos ao parque de campismo no topo do passo, encharcados, esfomeados e já de noite. Mais uma vez, porém, dois desconhecidos transformaram a noite numa bênção. Um casal texano, Deatra e Marc, estava acampado ao nosso lado e convidou-nos para comer pizza que lhes tinha sobrado, conversar longamente e beber um ou outro copo de bourbon e margaritas. Esta viagem estava a tornar-se cada vez mais sobre as experiências humanas incríveis, daquelas cujas memórias duram uma vida inteira.
O TODO-PODEROSO SCHOFIELD PASS
Voltámos à estrada depois de um delicioso pequeno-almoço partilhado com os dois texanos e promessas de que um dia nos voltaríamos a encontrar no Texas. O Trans Rockies Connector Trail foi criado por três bikepackers diferentes, dividido em três segmentos. Digamos apenas que o segundo bikepacker tinha uma visão de bikepacking… bastante diferente da de qualquer outra pessoa no planeta. A subida a partir de Marble — uma vila encantadora rodeada de lagos e montanhas, com um restaurante de aspeto incrível a servir churrasco em forno a lenha — estava descrita como “podendo incluir um pequeno troço de empurrar a bicicleta”. “Podendo”, o caraças! Dos 21 km de subida, empurrámos ou carregámos parcialmente as bicicletas durante cerca de 12 km. Depois conduzimos mais 4 km em terreno extremamente rochoso e apenas uns 5 km foram, de alguma forma, agradáveis… ainda assim com duas travessias de rio descalços, em água gelada. No final, porém, o cenário épico de nuvens de tempestade escuras, arco-íris gigantes e montanhas majestosas compensou todo o sofrimento, enquanto descíamos em direção a Crested Butte Mountain.
Depois de uma noite fria, húmida, mas absolutamente espetacular na tenda, entrámos em Crested Butte na manhã seguinte e decidimos dar-nos ao luxo de ficar num hostel para explorar a cidade e secar todo o equipamento. Crested Butte é simplesmente de outro mundo — um paraíso para MTB, trail running e esqui, sem franquias. Nada de McDonald’s, nada de Starbucks — apenas negócios locais. Um verdadeiro sonho tornado realidade.
UM DESVIO SURPREENDENTEMENTE DURO… COM FINAL SEM SAÍDA
Descansados e com as energias renovadas, continuámos a nossa viagem em direção ao Taylor Park Reservoir, onde — após 23 dias a conduzir — finalmente encontrámos outros bikepackers. Isso diz muito sobre o quão remota e intocada era ainda a rota que seguíamos. A partir do Taylor Park Reservoir, afastámo-nos do percurso oficial e seguimos na direção oposta, rumo a Leadville. Já tinha ouvido falar imenso desta cidade e visto inúmeros documentários de trail running ali gravados, por isso achei que seria uma paragem perfeita. Imaginei que encontraríamos facilmente um hostel ou um bom local para acampar, exploraríamos a cidade e desfrutaríamos de uma noite tranquila. Que engano monumental! Afinal, era a semana da Leadville 100, e parecia que toda a gente que tinha uma bicicleta de montanha ou uns ténis de trail no Colorado (e arredores) estava na cidade. Em poucos minutos, estávamos desesperadamente à procura de abrigo fora de Leadville. E esse abrigo? Bem… acabou por se tornar num enorme desafio. Depois de horas a subir trilhos e estradas de terra sob chuva intensa, chegámos a um beco sem saída com sinalização rígida de “proibida a passagem”. Em vez de voltar atrás durante pelo menos uma hora e meia para procurar uma alternativa, decidimos contornar a zona a pé.
Esse desvio implicou caminhar por erva molhada até à cintura e, quando chegámos a um pequeno rio, já estávamos completamente encharcados. Atravessámo-lo descalços, transportando primeiro as bicicletas e depois — numa última tentativa desesperada de manter a Annika animada — carreguei-a também ao colo. Infelizmente, esse momento de otimismo terminou em propriedade privada, com dois cães furiosos e um proprietário ainda mais zangado. Estávamos, no entanto, a cerca de 10 metros da estrada, por isso seguimos nessa direção enquanto pedíamos desculpa vezes sem conta. Depois de mais 30 minutos miseráveis ao longo da estrada mais movimentada da zona, encontrámos finalmente um local horrível para acampar no meio da floresta.
A FOGUEIRA FATAL
A manhã seguinte foi um verdadeiro momento de cérebro desligado para ambos. Estávamos tão exaustos do dia anterior que tentámos secar o equipamento junto à fogueira matinal… e acabámos por derreter os calções da Annika, os dois pares de sapatos de ciclismo e os capacetes. Os sapatos deformaram-se tanto que ficaram praticamente dois números mais pequenos, tornando cada passo incrivelmente doloroso. Ainda assim, seguimos em frente, arrastando os pés doridos durante mais uma hora e meia ao longo daquela estrada horrível. Mas, como tantas vezes acontece quando menos esperamos, algo bonito surgiu: uma descida recreativa de 20 km absolutamente fantástica, que nos levou até à próxima vila. Para nossa surpresa, encontrámos até um forno para botas de ski, que ajudou a moldar novamente os sapatos — pelo menos um pouco.
PERDIDOS… SEM DINHEIRO
Era a época das chuvas e das trovoadas — no total, nove dias seguidos, para sermos precisos — mas a bondade do responsável por um parque de campismo nos arredores da vila mudou completamente a nossa sorte. Ele convidou-nos a ficar num lote que tinha sido pré-pago por alguém que nunca apareceu. Provavelmente estás a perguntar-te porque é que ele nos convidou. Bem, porque, como era habitual, eu — o Till — tinha-me esquecido do cartão de crédito no hostel em Crested Butte, e a essa altura já não tínhamos dinheiro nenhum. Apesar de tudo, mantivemos o espírito elevado. Absorvemos as subidas incríveis, as vistas montanhosas de cortar a respiração, os singletracks fantásticos e as estradas de terra que serpenteavam pelas montanhas. À medida que avançávamos dia após dia rumo a Boulder, os desafios dos dias anteriores iam desaparecendo, e o último dia de condução teve de tudo — um final perfeito para a nossa aventura.
O ÚLTIMO TROÇO E AS “AVENTURAS DO ÚLTIMO DIA”
Quando pensávamos que já tínhamos chegado, o último dia ainda nos reservou algumas surpresas. A Annika sofreu uma queda (mais um acidente em câmara lenta), atravessámos uma ponte de madeira bastante duvidosa, desfrutámos de uma descida incrível numa estância de ski oficialmente encerrada (algo que só descobrimos depois) e, por fim, deparámo-nos com a visão mais estranha de toda a viagem: um homem meio nu, de machete na mão, a gritar sobre um leão-da-montanha. Sim — é assim que sabes que viveste todas as variantes possíveis de uma aventura. Quando finalmente entrámos em Boulder, a nossa aventura de MTB tinha chegado ao fim… mas a viagem ainda não. O nosso “anjo da guarda” Cory, contactado previamente pelos nossos anfitriões cowboy em Delta, não se sentia confortável com a ideia de pedalarmos até Denver para apanhar o avião. Por isso, conduziu cinco horas até Boulder, foi buscar-nos, levou-nos a Denver, reservou-nos um hotel, ofereceu-nos o jantar e depois conduziu mais cinco horas de volta para casa. Isto é hospitalidade do Utah e do Colorado.
BONDADE E HOSPITALIDADE
Este artigo mal arranha a superfície da beleza e da aventura que vivemos ao longo de 30 dias inesquecíveis. No final, não foram apenas as paisagens deslumbrantes ou as subidas insanas que tornaram esta viagem de bikepacking tão memorável. Foram as pessoas que encontrámos pelo caminho — aquelas que partilharam uma refeição connosco, nos deram um lugar para ficar e nos mostraram o verdadeiro significado da hospitalidade. O Trans Rockies Connector Trail pode ter sido um enorme desafio físico, mas foi também uma montanha-russa emocional que nos deixou memórias para toda a vida. Ao olhar para trás, esta viagem provou, mais do que uma vez, que as BIG.NINE 10K eram simplesmente ideais para esta aventura. Transportaram todo o nosso equipamento com facilidade, mesmo com peso extra; subiram de forma impressionante; ofereceram uma posição de condução confortável, mesmo nos intermináveis dias de chuva; e, quando libertadas em trilhos mais exigentes, colocaram-nos um sorriso gigante no rosto. Obrigado, mais uma vez, MERIDA!
Para mais histórias dos trilhos, segue a Annika e o Till no Instagram.
Text and images provided by Annika and Till Schenk.